Shame on me

A conversa interessantíssima que rolou no bus aquele dia dizia respeito ao trabalho de uma guria em um centro de reabilitação para dependentes químicos. Tenso. Ela contou histórias de lá, de pacientes viciados em crack e tal. Uma hora ela disse que todo o ser humano possui na genética a tendência a ter um vício. Eu concordo com isso. No fundo, no fundinho, todos nós temos algo que fazemos que seja puro vício. Faz um mal danado, mas a gente continua. É claro que comecei a pensar em qual é o meu vício. Sim, porque eu não sou nem melhor nem pior que os outros seres humanos. Somos todos iguais, todos somos seres especiais. E problemáticos, convenhamos. Dito isso, logo, tenho um vício. Ou dois, ou três... Mas um, com certeza, é sempre o pior e mais devastador. Passei a viagem de volta para casa pensando, pensando... Qual é o meu vício? Álcool não é, eu adoro, mas fico um mês sem ele fácil, fácil. Óbvio que não dispenso um vinho, mas me viro bem com água sem gás, no problems. Drogas também não, quero distância, peloamordedeus. Chocolate? Talvez... Eu amo de paixão um chocolatezinho, mas acho que não chega a tanto. Se eu quiser, fico sem ele também. Sapatos? Bolsas? Nem que eu quisesse, o limite do meu cartão de crédito não deixa. (Ainda bem! Hahaha) Então, veio o insight: o meu vício está na minha cara. Literalmente. E eu fingindo não o ver... Meu vício é travar uma batalha dolorosa com os meus cravos. Está no meu rosto o meu vício, tem coisa pior? Não dá para disfarçar. Essa que é a minha maior vergonha. Eu não lembro exatamente quando comecei esse processo de mutilação. Eu perdi totalmente o controle sobre ele. Sério. Eu chegava a mexer nos meus cravos mesmo com a minha pele linda, perfeita. Eu precisava ir lá e cutucar. Provocar feridas em mim, interna e externamente. Porque o que eu sinto quando mexo nos cravos é uma das piores sensações do mundo. Sinto-me a pessoa mais fraca, mais covarde e mais burra do mundo. Vou dormir achando-me péssima. Sei que toda essa barbaridade é a minha "válvula de escape", é onde desconto o que está ruim, aquilo que está me incomodando. Tem gente que bebe demais, que fuma, que malha em excesso, eu mexo naquelas pontinhas pretas quase imperceptíveis aos olhos dos outros, mas gigantes ao meu ver. Fica pior ainda, percebi. O tempo que demora a sarar os mini ferimentos é o tempo que minha autoestima sofre um abalo sísmico e vai ao chão. Para reconstruir, haja horas e dias. Às vezes nem cicatrizou, já estou provocando outras lesões "de graça". Uma tristeza que me faz sentir dó de mim mesma. Faz bem pouco tempo que realmente conscientizei-me disso e vi que era pura idiotice e burrice deixar esse "defeito" me dominar. Oras, eu que tenho o controle. Eu e meus pensamentos bonzinhos. Os meus pensamentos vilões não merecem essa atenção toda, muito menos merecem aparecer no meu rosto. Lindo rosto, o meu. Há uns dias estou evitando passar pelo espelho e muito menos parar na frente de algum por mais de uns segundos. Eu já me aproximo dele e vou lá olhar e analisar os meus cravinhos (cravões, para mim). Estou aprendendo a controlar as minhas mãos. A não as deixar virem até o meu rosto e machucá-lo, atingindo até a minha alma. Já tentei várias táticas, mas até agora (minha nova tentativa começou a uma semana mais ou menos) a única que está dando certo é a força de vontade de mudar, de não deixar me dominar por essa vontade estúpida. Vou a fazer morrer, vou fazer ela se dissipar. Vou ser mais feliz, vou me livrar desse vício.

Comentários

  1. Mas será o vício um problema? Ou dele, seja qual for, apenas um sintoma? Inclino-me a crer na segunda idéia. Ademais, quanto aos meus três insaciáveis vícios (café, chocolate e refrigerante), nem penso em os deixar. Quando a vida é repleta de concessões, querida amiga Pri, toda fuga tende a valer a pena, e, talvez, o melhor dos vícios seja afinal o de tê-los muitos.
    GK

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  2. Oi GK!
    Creio que seja um sintoma de outro "problema", sim. Qual ao certo ainda estou descobrindo.
    Pode ser... Mas o meu vício realmente me faz mal, não me agrega nada. Só me deixa mais triste. Já os seus vícios nem são tão ruins assim... Hehehe
    Obrigada pela visita!
    Beijos,
    Priscilla

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  3. Oi, Pri! Que bom que tu estás conseguindo deixar esse vício de lado, pouco a pouco, dia após dia... é um vício pequenino perto dos demais que existem em outras pessoas, que são maléficos, hediondos para elas e para a sociedade, mas merece atenção e autocontrole! Que bom que tu estás alcançado êxito! Beijão, AVP.

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  4. Oi AVP!
    Sim, estou conseguindo aos poucos me livrar desse vício feio que me acompanha há um tempinho já. Mas é um desafio diário! Todos os dias preciso reafirmar para mim mesma que não devo mexer nos meus cravos e manchar o meu sorriso com esse ato.
    Obrigada!
    Priscilla

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  5. Olá "Pri". Me identifiquei com seu texto porque também sofro desse problema, tenho 18 anos e desde os 12 mexo no meu rosto sem parar, eu realmente tenho muitos cravos, mas muitas vezes, com minha pele limpinha eu ficava procurando mesmo cravos para poder espremer, também fico me sentindo uma idiota, a pessoa mais fraca do mundo. Minha pele era linda, pele de veludo mesmo, mas eu mexendo sempre, formava(e ainda forma, porque estou falando no passado? ainda faço isso) catombos, feridas, minha pele sempre vermelha, quem me vê deve pensar que sofro de acne levemente forte. E o que me deixa mais entristecida é que isso também me causou envelhecimento precoce, eu esticava a pele mesmo Pri pra poder ver os mais ínfimos cravinhos, agora tenho algumas rugas que eu não devia ter para a minha idade. Já passei da hora de perceber que isso é realmente um problema, sem falar que também tenho outro problema: arrancar meus cabelos! Meu cabelo era super volumoso, agora é pouquinho, pouquinho, mas desse mal já me recuperei (ás vezes tenho umas recaídas). Pra você ver Pri, o cúmulo foi um dia em que eu estava no provador de roupas de uma loja e fiquei tirando uns cravos, quando saí minha mãe percebeu e falou que eu tinha que me tratar :(.

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    Respostas
    1. Oi Renata,
      Bah guria, eu te entendo. E me dói ler o que tu escreveu, mesmo. :/ Quando eu mexo na minha pele, me sinto uma completa idiota, uma burra. Sento na minha cama e só me dá vontade de chorar. Na última vez que eu fiz isso, me dei conta que isso se deve a minha autoestima quase nula. E isso me assustou tremendamente. Porque, pensa, uma mulher sem a sua autoestima não é nada, não chega a lugar nenhum.
      Minha pele seria praticamente perfeita se eu não mexesse, porque, no fundo, todo mundo tem cravinhos, mas nem dá para notar. Nunca tive acne mesmo, de ter que tomar remédio. Só espinhas normais de adolescente, ou seja, não tenho motivos "verdadeiros" para cutucar a pele do meu rosto, que é o meu "cartão de visitas".
      Tu já procurou ajuda com alguma psicóloga ou terapeuta?
      Elas realmente podem nos ajudar. Sabe porquê? Elas vão ajudar a gente voltar lá na nossa infância, quando alguma coisa desencadeou tudo isso e provocou essa nossa mania de nos machucar. Eu queria muito voltar para a minha, muito, mas no momento a grana não permite. :/
      Na última psicóloga que eu fui, fiquei com vergonha de contar pra ela e acabei nem dizendo a ela essa minha mania de me "automachucar". Depois percebi que ela poderia ter me ajudado. Com certeza, esse ato diz muito sobre nós.
      Sabe, todo começo de ano faço as minhas metas para o ano que está vindo. A primeira de 2012 era parar de mexer nos cravos e arruinar a minha pele. Não consegui. Agora em 2013, ela está novamente em primeiro lugar.
      Em janeiro, já descumpri o que eu havia prometido. :///
      Mas agora em fevereiro, eu realmente preciso parar com isso. Sério. É o mês do meu aniver, faço 22 anos. É o mês da minha renovação, da minha vitória, vai ter que ser. Não dá para continuar assim. Os outros podem achar que é fácil, mas a gente sabe como é difícil nos controlar. Mas eu vou conseguir, porque vai ser o melhor presente de aniversário que eu poderia me dar. Para tentar ajudar, colei duas fotos de mulheres bonitas na parede para me inspirar, mais ou menos do meu perfil, para que eu possa ver que eu também sou linda, posso ficar ainda mais e que eu vou vencer.
      É preciso repetir toda a hora que somos bonitas e que a nossa pele não merece sofrer. Como uma mantra, vamos repetir que vamos mudar. Somos fortes!!!
      Guria, a verdade é que precisamos nos amar. E muito, muito, muito. A gente precisa se amar. E logo, pra hoje.
      Vamos tentar?
      Coragem!!! E força!!!
      Obrigada pelo seu comentário!
      Volte sempre, guria! =)
      Beijos,
      Pri

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    2. Que tal a gente tentar parar juntas? Podemos manter contato e nos ajudar!!!
      Se estiver a fim, me mande um e-mail, para pripanizzon@gmail.com e vamos vencer essa juntas, que tal??? Eu quero!!!
      Acabei nem falando sobre os seus cabelos. Guria, que bad!!! Não faça isso, seja forte, assim como já falou que conseguiu parar. As recaídas vão desaparecer, você vai ver.
      Beijos!!!

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