Brincar é viver

Eu tenho pena de quem um dia deixou de ser criança. Deve ser uma vida muito triste, deve ser uma vida quase morta. Eu sempre fui a mais "brincalhona" das minhas irmãs - e nunca quero deixar de ser. Sempre dou um jeito de falar alguma besteira para aliviar o clima ou descontrair. Quase sempre é simplesmente para rir, uma das melhores coisas dessa vida. Dentro de mim, sempre tive muito orgulho disso, sempre gostei muito de ser assim. É a primeira vez que digo isso "em voz alta". Sei lá, devo ter nascido assim, mais propensa a não levar tudo tão a sério. Talvez eu vim para esse mundo com uma dose de distração - e de paciência, também - a mais do que o resto do pessoal.  Às vezes voluntária, porque brigar por picuinha é besteira. Às vezes involuntária mesmo, ouço algo e no instante seguinte já esqueci.
A vida, para mim, é como uma criança. Exige seriedade, mas nem tanto. Afinal, brincar é tão legal e nunca menos importante do que trabalhar, estudar e ganhar dinheiro. Tem a hora de fazer o dever de casa, mas também tem a hora de comer chocolate e me lambuzar toda, sem me preocupar se a camiseta vai sujar e se vai manchar. A vida, por mais pesada que esteja, sempre foi leve e deve continuar sendo. Fez dodói? Coloca um ban-aid que resolve. Vai cicatrizar. No final, aquela marquinha ainda vai nos lembrar de algo bom, por mais que na hora doeu bastante e a gente chorou escandalosamente.
No último sábado, aconteceu algo que quase me fez chorar. Acho que não posso descrever melhor uma criança do que contando essa cena da qual fiz parte. Eu estava sentada, na frente do computador, como sempre estou. Checando e-mails, jogando Paciência, lendo notícias, essas coisas rotineiras. Naquela manhã a única coisa diferente eram os meus pensamentos. Lembrava-me da noite anterior, dos minutos anteriores. De como estar com ele me faz bem, de como eu gosto... O último comentário dele, porém, deixou-me ansiosa. Devia haver um resquício de medo no meu rosto. A menina entrou com o seu pai e, enquanto ele era atendido, ela veio caminhando, devagar, em direção a minha mesa. Notei a presença dela, mas não a olhei logo. Esperei um pouco. Ela continuou avançando. Então, virei o rosto para ela, procurando os seus olhos. Uns milésimos de segundos depois e ela fala: "Posso te dar um abraço?". Ela, com aquela carinha, aquele jeito suave que só criança tem, fez uma pergunta que a maioria das pessoas passa a vida toda sem fazer. Inclusive eu, até hoje. E é uma das mais importantes. Mais simples e mais importantes. Na hora, eu quase levei um susto, porque jamais passou pela minha cabeça que aquela guriazinha que nunca tinha me visto na vida iria me oferecer um abraço. Respondi que sim, claro, com um sorriso gigante no rosto. Então ela veio, me abraçou e me deu um beijo na bochecha. Eu retribui o abraço e o beijo. Depois começamos a conversar e ela me contou mais sobre a sua vida, dos seus seis anos.
Talvez tenha sido um dos momentos mais lindos e puros que eu já vivi. Talvez ela soubesse - de algum jeito - que não está fácil e que um abraço é sempre bem-vindo nesses momentos. Talvez ela tenha gostado de mim, do meu jeito e só. Talvez ela aprendeu com a mamãe que abraçar faz bem e é de graça, não custa nada. Talvez ela aprendeu que todo mundo merece um abraço. Talvez...

A infância está perdida? A juventude está perdida? Quem está perdido são os adultos, eles e as suas regras que nunca funcionam. A vida não está perdida se resgatarmos a criança que mora em nós.

A gente nunca deveria parar de brincar.

Comentários

  1. Amadurecer é ver tudo fazer cada vez menos sentido.
    GK

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    1. É verdade, Gugu, sua observação faz todo o sentido...
      Beijos,
      Pri

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  2. Pri, achei seu blog pelo seu email do TOC, também fui selecionada. Muito legal, tô lendo aos poucos seus posts. Esse da criança me tocou especialmente, senti uma vontade de abraçar o mundo! Parabéns!

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    1. Oi Marta!
      Parabéns para nós, então! hehe :)
      Fico muito feliz que esteja curtindo os meus textos! E é verdade, muitas vezes esquecemos que abraçar é um prazer que não tem preço e é totalmente delicioso. Então, vamos abraçar mais! hehe :D
      Estou seguindo o seu blog, logo passo por lá e deixo um recado.
      Muito obrigada pela visita e pelo comentário. Volte sempre!
      Beijos,
      Pri

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