Eu só preciso de ar

Esconder a fraqueza com uma máscara de frieza. É isso. E não sou só eu, são milhares por aí. Talvez milhões. E já foi pior, muito pior. Já doeu muito mais, já me envergonhou demais, já me fantasiei o suficiente. Não sei, posso estar cometendo um terrível engano ou posso estar culpando quem não devo, mas aprendi a ser assim. Dia a dia, como se aprende a falar, a escrever, a vencer e a perder. Foi tudo muito indiretamente, tudo muito implícito, mas foi. Mais fácil fingir do que se mostrar, mais fácil mentir para os outros do que olhar para dentro. Mais fácil encobrir do que descobrir a real causa, a raiz de tudo, o começo do mal.
O mecanismo é automático, quase imperceptível para a maioria. Só que uma vez decodificada a mensagem, não tem mais como se enganar. Fica impossível mentir para mim mesma. É simples e complexo. Quanto mais dói, mas eu pareço fria. Quando mais rasga, mais eu pareço íntegra. Quanto mais verdade, mais eu me encubro de mentiras. Quando mais fraca, mais pareço feita de ferro. Quanto mais escuro, mais acendo luzes artificiais. Quanto mais lágrimas, mais sorrisos falsos. Quanto mais insegurança, mais falsa calmaria. Quanto mais vazio, mais máscaras.
O baixo astral me rodeia, me cerca, me enlouquece. O pensamento negativo aos poucos vai corroendo a minha alma, vai sugando a minha esperança, vai escurecendo o meu céu interior. Eu, que sempre adorei me banhar com a luz do sol, deixo-me agora abater por uma nuvem cinzenta. A minha tímida, ínfima e discreta força de vontade tenta sobreviver de todos os jeitos possíveis, agarra-se a frases desse e daquele, a sorrisos de quem me faz sorrir, a devaneios que me prendem no chão. Eu acredito e não acredito, milhões de vezes em um minuto. Eu tento remar contra a correnteza, eu tento nadar contra a maré, eu tento procurar outro mar, mas eu acabo entrando no mesmo barco, ou caindo dele, ou me afogando. Talvez eu já esteja sem ar e nem tenha me dado conta. Vivo respirando por aparelhos numa vida que não é minha.
Eu quero ir embora. Eu preciso, antes que essa poluição envenene meus sonhos por completo. Antes que eu deite na cama e só enxergue pesadelos. Eu cansei desse pessimismo entre quatro paredes, de manhã, de tarde, de noite. Eu quero acreditar, eu quero me amar. Eu só quero é me ouvir, eu só quero é ser ouvida, eu só quero é ser compreendida. Eu cansei de pagar por escolhas mal feitas de quem deveria dar o exemplo, eu cansei de me culpar sem saber que estava me sentindo culpada, eu cansei de ficar na linha de guerra de uma batalha que não tem nada a ver comigo. De fingir não ouvir, mas lembrar do que foi dito. De fingir não me atingir, mas chorar antes de dormir. De fingir não sentir, mas doer muito. Machuca admitir, mas eu quero a solidão, eu quero a distância, eu quero a paz longe daqui. Estou farta de ter que reacender, sozinha, a chama vacilante da minha confiança infinitas vezes. É energia mal canalizada, que poderia estar sendo mais bem aproveitada. É algo com que eu não precisaria me preocupar, mas vira sempre o centro das atenções.

Eu cansei de me sentir sufocada ao lado de quem deveria ser o meu oxigênio.

Comentários

  1. Me identifiquei muito.. por mais que eu tente ver o lado bom das coisas (que são tantos), algo me sufoca, me puxo para baixo e não consigo dar a volta por cima. Força!

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    1. Oi!
      Fico feliz que você tenha se identificado com o texto. Afinal, escrevo para mim, mas para os outros também.
      Força: essa é a palavra, essa é a ideia, essa é a atitude.
      Valeu pelo comentário! :)
      Beijos,
      Pri

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  2. É belíssimo que tenhas conseguido pôr tudo isso para fora num texto assim, tão pungente! Mas, quanto ao que mais importa, que tal dar agora o primeiro passo?
    GK

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    1. Oi GK!
      Obrigada!!!
      É, já passou da hora de dar o primeiro passo. stou tentando colocá-lo em ação o quanto antes, só que ainda não tenho condições de fazê-lo por completo. Sei que não tem desculpa, mas a vida às vezes pode ser muito complicada, muito.
      Mas eu vou conseguir, eu vou.
      Obrigada pela força, sempre!
      Beijos,
      Pri

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  3. Força, menina. Não se deixe sufocar em pensamentos obscuros. Encontre a leveza do ar... ou mude de ares :)

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    1. Obrigada, obrigada!!!
      Você sabe que essa é a minha maior batalha, o maior desafio que eu tenho comigo mesma, não me deixar levar por toda energia negativa que eu absorvo e deixo fazer parte das minhas entranhas.
      Vou tentar, vou tentar mesmo respirar (e viver) melhor! Muito ar puro para você também! :)
      Beijos,
      Pri

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