Abra os olhos


Quinta-feira. Faz calor na tarde de começo de outono, como uma espécie de ressaca do verão depois de uma manhã amena. Estamos falantes, como se tivéssemos pressa de colocar para fora. Conseguimos relaxar, enfim. Somos estranhos uns aos outros, mas nem tanto quanto imaginamos. Ao contrário dos sotaques que não deixam mentir. Faz calor. Ele tira o casaco e o cigarro. Está de camisa. Começa a puxar a manga do antebraço direito. Lá vem os traços. A cada dobra, mais uma pista. Biológico, fisiológico, humano. Um coração. Tatuado na minha memória. 

Sábado. É uma manhã nem fria, nem quente. Primeiros acordes da primavera ainda baqueados pelo inverno. Estou naqueles dias. Sensível, com a cabeça nas nuvens e vagarosa nos passos. É quase hora do almoço, ou seja, hora de ir à caça de comida. Prateleiras, esteira, preços, troco, sacolas, porta afora. Minha irmã está ao meu lado. Na outra direção, ela se aproxima. O destino parece o mesmo: supermercado. Algo chama minha atenção. É o casaco. Tem cara de antigo. E quente. Traz algo a mais desenhado em meio aos fios. Um lobo. Enorme. Salta para mim.

Quinta-feira. É uma manhã agradável. Não para o meu estômago, que está de jejum. Sento e confiro a minha senha. Dez na minha frente. Respiro fundo. Inspiro, expiro, inspiro, expiro... Na televisão, notícias ruins para começar bem o dia. Desvio o olhar. Um celular toca, o outro apita uma nova mensagem. Eu confiro o painel mais uma vez. Ainda não chegou a minha vez. Ela vem vindo. Traja cabelos brancos. Na companhia de outra moça, só de idade diferente. Vem com a sua bolsa. Daquelas transversais. Olho e lá está ela, estampada. Uma coruja. Olha para mim.

Eu quero... Encontrar a minha essência. Ser mulher-lobo. Ouvir a minha intuição. Eu quero tanto. Abra os olhos. Parece uma afirmação redundante. Mas será mesmo? Abrir os olhos é mais do que enxergar, é sentir. Abrir os olhos é estar atenta e atento aos sinais que a vida dá. Ou Deus, ou Deusa, como queira chamar. A vida avisa se é o caminho certo. A linguagem, porém, não é objetiva. A vida não fala letra por letra. Ela gosta da sutileza. De nos pegar desprevenidos. De fazer o tempo parar por um instante, suficiente para virar memória. Basta os olhos estarem abertos. Preste atenção e verá.

*Toda sexta-feira, às 10h, tem crônica nova aqui no blog. Gostou? Deixe seu comentário! E volte sempre!

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