O meu ano sabático



Quando falavam sobre o tal "ano sabático", eu nunca entendia exatamente o que aquilo significava. Devia ser algo que se fazia por volta dos 40 anos, suscitado por uma baita crise existencial, daquelas que trazem à tona questionamentos sobre todas as escolhas já feitas. Trabalho, família, relacionamentos... Na minha cabeça, haviam até etapas pré-definidas: depois de um pico de estresse com direito a burnout, eis a desculpa perfeita para pedir demissão, vender o carro, comprar uma passagem só de ida para a Índia e embarcar sozinha para pensar na vida. Realmente parecia uma experiência bacana. É isso o que eu pensava. Levava e não levava fé. Sei lá. 

Só não pensei que fosse passar por isso tão cedo. E sem querer. O meu 2017 começou de um jeito e terminará de outro totalmente diferente. Comecei o ano em uma típica festa de Réveillon bem mais ou menos. Daquelas que, hoje, só de pensar, não sei como eu realmente quis ir. Mau ou bom presságio? Os dois... Veio a formatura e o tão esperado canudo depois de anos de estudo. Eu só quero me formar. Eu só quero me formar, repetia. Era tudo o que eu pensava. Minha vida vai mudar. Ela tem que mudar. Eu preciso conseguir um emprego. Eu preciso sair de casa. Junto a isso, parei, de repente - mas alguma coisa me dizia que não haveria volta -, de tomar a pílula anticoncepcional e me deparei com um corpo, uma mente e uma alma feminina em desequilíbrio.


Eu precisava me reencontrar. Mesmo sem saber, dei o start para um processo de autoconhecimento que começava a fluir, como um rio calmo que deságua no mar revolto. Não foi por acaso que o Osho me fascinou desde a primeira vez que ele apareceu na minha vida. Recém com 26 anos completos, com um diploma em mãos e espinhas no rosto, eu comecei a sentir que, de fato, eu não sabia o que eu tinha feito até então. Não sei. Talvez daqui um tempo eu saiba descrever a sensação que senti ao me deparar com a vida. É, a vida. Depois de 12 anos estudando de segunda a sexta no colégio e mais oito anos entre faculdade e estágios, eu parava e olhava a vida realmente de frente. Não dava mais para encarar a vida no automático. 

Não tinha despertador para me acordar. Não tinha hora para chegar no trabalho. Não tinha hora para chegar na faculdade. Eu tinha tempo! Não nos dão tempo para pensar. Pensar nunca foi mesmo algo que tenham tido interesse em nos ensinar... É perigoso. Mais ainda é sentir... E agora? A vida é isso mesmo? Isso o quê? O que eu busquei todo esse tempo? O que, de fato, eu quero para mim? Por que escolhi a profissão que escolhi? Qual é a versão dessa profissão que eu gosto e quero para mim? Quais sonhos eu deixei para trás? Quais sonhos são meus de verdade? Tem alguém sonhando no meu lugar? Tem alguém vivendo a minha vida? E essa Mulher que vive dentro de mim? Do que ela precisa? Do que ela quer? Do que o meu corpo precisa? Hormônios a mais? É de hormônios sintéticos que ela precisa? Como estão os meus relacionamentos?

Entre um currículo enviado e outro, entre uma entrevista e outra, questões como essas foram surgindo, simplesmente, dentro de mim. Mais, mais, mais... E aquilo que tem força, tem força. Comecei a ler um texto aqui, a assistir um vídeo ali, a conhecer pessoas acolá... Tudo se ligava. Quando vi, havia embarcado na viagem mais insana que eu poderia fazer: para dentro de mim mesma. Nunca me senti tão cheia de vida, tão perdida, tão leve, tão ansiosa, tão linda, tão feia, tão decidida, tão temerosa. Tão eu!!! Talvez não seja o único ano sabático da minha vida. Quem sabe quantas surpresas a vida guarda para mim? Quem sabe o que eu mesma ainda vou descobrir sobre eu mesma? Eu não sei!!! Porém, sei que o caminho é para dentro, lá onde guardo toda a criatividade, garra e paixão para seguir em frente, em busca do que eu acredito. E a viagem está só começando. 

*Toda sexta-feira, às 10h, tem crônica nova aqui no blog. Gostou? Deixe seu comentário! E volte sempre!

**Nas próximas sexta-feiras, 05/01/2018 e 12/01/2018, o blog estará de férias buscando inspiração para o ano novinho que vem aí. É tempo de relax!

Comentários

  1. Poxa Priscilla, conheço seu blog há uns anos e já li alguns do seu novo sobre o Sagrado feminino. O que me leva a continuar de tempos em tempos vindo dar uma olhadinha no seu espaço é a sua sinceridade, o valor que você dá à vida e aos sentimentos e não tem vergonha de falar sobre isso.

    Tenho a impressão que muitas pessoas acham vergonhoso falar de coisas assim, e muitas até mesmo não dão valor a isso. Me identifico muito sua forma de pensar sobre a vida e agradeço o simples fato de você ter coragem de escrever seus sentimentos. Li seu texto sobre a crise dos 22 e quase me desceu uma lágrima, porque vou fazer 23 e tô passando por isso, a diferença é que minha crise é punk a ponto de não conseguir ver mais a possibilidade de dias bonitos.

    Parabéns pelo trabalho!

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    1. Oi, Renata!
      Fico tão feliz quando leio comentários como o seu. Tão feliz! Obrigada, obrigada! :)
      Sabe que, até pouco tempo, nem eu me percebia como uma pessoa sensível a sentimentos, espiritualidade, emoções... Aos poucos, fui me dando conta que, sim, tenho paixão por ser humana e por minhas "humanidades". E também pelas dos outros. Escrever me ajuda muito a percebê-las mais claramente e organizá-las para meu lado racional.
      Que bom que você está acompanhando o Toda Mulher é Sagrada. :))) Fico muito contente! É um projeto que surgiu muito forte e que cresce de dentro de mim.
      Sabe, Renata, em momentos como essa crise que você está vivendo, um velho mantra pode ser poderoso: Vai passar. Tudo passa. Acredite, vai passar. Essa angústia que você sente, vai passar. Ela está aí para te ensinar algo, para te fazer movimentar alguma coisa dentro de ti. O que será que é?
      Se posso te ajudar com coisas práticas, indico fazer meditação. Gosto muito das do canal no Youtube Yoga Mudra. Escolha uma que você sente mais conexão e faça diariamente. Tente ficar mais em contato com a natureza, sentir a energia do sol, da lua... E coloque para fora o que você está sentindo. Fale sozinha em voz alta, escreva em um caderno, procure ajuda de uma terapia, fale com o cachorro... Fale. Coloque para fora que ajuda muito a clarear. Me ajuda muito! E lembre-se: vai passar. Vai passar! Vai passar!
      Eu que agradeço pelo carinho. Estamos nessa vida para compartilhar. Que bom que eu chego até você e você chega até mim.
      Um beijão e fique forte! Sinta o meu abraço cheio de energia positiva.

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  2. Obrigada pelas palavras Priscilla, mas é complicado. Vivo há alguns anos assim e tenho feito por onde mudar, mas nem tudo na vida depende apenas da gente.

    "Ela está aí para te ensinar algo, para te fazer movimentar alguma coisa dentro de ti. O que será que é?". Talvez algo para me fazer valorizar muito uma felicidade que eu viesse a ter no futuro, mas já perdi as esperanças. Meu maior medo é chegar à velhice da forma que estou hoje, olhar para trás e ver que perdi a juventude. Prefiro que tudo acabe antes. É incrível como quando se tem 15 anos o tempo não passa, parece estar na sua mão, mas nos 20 você percebe o quanto o tempo é curto e passa muito, muito rápido.

    Sabe, ás vezes só queria voltar pros meus treze anos, quando apesar dos problemas que tinha, das tristezas da adolescência, das dúvidas, dos traumas e sentimentos fortes, o tempo "não passava" e o futuro era infinito e cheio de possibilidades.

    Desculpa o desabafo, e se achar desnecessário aqui pode excluir, de verdade. Mas parabéns pelo blog e continue assim. Sempre com sua verdade, mas nunca se sentindo na obrigação de escrever algo desse tipo.

    Obrigada!

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    1. Que bad, Renata... :( Não estou no seu lugar, mas já passei por momentos difíceis que achei que não teria saída e, dia após dia, eu fui vivendo (capenga, mas fui vivendo) e quando vi eles tinham passado.
      Se puder, procure ajude de uma psicóloga ou psiquiatra. Às vezes, nós não temos mesmo mais forças de seguir sozinhas. Por isso, existem essas pessoas que podem nos ajudar. E muito! Eu fui por um tempo e até hoje lembro de coisas que ela me disse. Quando tiver dinheiro, vou voltar. Se não der, quem pode te ajudar? Mãe, pai, irmão, irmã, tia, primo, amiga, colega, professora... SEMPRE tem alguém que pode nos ajudar. Não tenha vergonha de pedir ajuda. Nunca.
      E... Fiquei pensando. Essa menina de 13 anos ainda mora ali dentro de ti. Todos os sonhos dela ainda moram em ti. Os sorrisos também. O que aconteceu que te fez afastar dela? Procure sua verdade. Procure o que fazia os olhos daquela adolescente brilhar. Talvez isso ainda faça os seus olhos brilharem.
      Não sei se suas questões são mais profissionais, de relacionamentos, familiares, etc, mas sempre há como resolver. Nem que seja dizendo um "Foda-se!!! Vou pensar em mim".
      Com 22, era mais difícil eu enxergar o que sei hoje, claro. Eu vou fazer 27 anos no próximo dia 19. Me formei há um ano. Não estou ganhando nada de dinheiro desde lá. Alguns podem dizer que isso é um fracasso total, um tempo perdido, uma loucura. Mas só eu sei o quanto esse ano foi de muito crescimento, desafios e autoconhecimento para mim. Hoje, nunca me senti com tanta energia para realizar os meus sonhos. Eu percebi que: está tudo dentro. Medos, padrões negativos, crenças limitantes, garra, amor e felicidade.
      Sobre o futuro... Eu gosto de pensar que, se formos felizes no presente, o futuro não terá outra escolha a não ser melhor ainda. É a lei da ação e reação.
      Siga forte, Renata! Procure apoio e acredite: vai passar!
      Um beijo!

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    2. Obrigada Priscilla! Sei exatamente quais os motivos da minha angústia e o sentimento de parecer não valer mais a pena viver. Pretendo ir sim no psicólogo, mesmo sabendo que profissional nenhum muda a nossa vida, mas tenho que tentar, nem que seja pra falar sobre minha situação, porque com os familiares e amigos próximos não posso. Eles não podem me ajudar.

      Poxa, 27! Se quiser, tiver inspiração, faz um post sobre isso depois!

      "Mas só eu sei o quanto esse ano foi de muito crescimento, desafios e autoconhecimento para mim.". Pois é Priscilla, que bom! Afinal, que triste fim quem acha que a vida se resume apenas a alcançar a famosa "estabilidade financeira".

      Felicidades!

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    3. De nada!!! :)
      Boa ideia! Vou escrever sobre o meu aniver. Não tinha pensado nisso. Thanksss!
      Beijo, beijo!

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