Vida-morte-vida (Parte 1)


A primeira vez foi no momento em que fechavam o caixão da minha avó Alda, mãe da minha mãe. Naquele momento, no final do velório, em que o padre fala que os familiares podem se despedir do ente querido. Senti um aperto no peito. Comecei a chorar compulsivamente. Junto a tudo isso, parecia que me faltava o ar. Era mais forte do que eu, involuntário. Não pensei que fosse reagir daquela maneira. Lembro que uma tia, irmã do meu pai, veio me amparar. Na hora, não assimilei que aquela era a primeira vez na minha vida que eu sentia aquilo invadir meu corpo. Era algo novo. Intenso.

A segunda vez foi após o fim de um relacionamento. Foram noites e noites deitando na cama, soltando lágrimas e sentindo aquilo até pegar no sono. Ainda não sabia dizer o que significava. Pensei... Pensei... E percebi: é a sensação do "nunca mais". Aquele desespero que eu senti no dia da morte da minha avó era a consciência (mesmo que inconsciente) que eu nunca mais a veria. Nunca mais olharia nos olhos dela. Nunca mais ouviria a voz dela. Nunca mais comeria a comida dela. Nunca mais. Não tinha volta. Dói... Com ele, também. Tinha sido o último abraço. O último beijo. O último. Doía tanto...

Há poucos dias, voltei novamente àquela capela para um velório. Dessa vez, o do meu avô Osvaldo, pai da minha mãe. Já estando a par dos sentimentos que me invadem quando algo chega ao fim e eu não estou preparada ou não quero que aquilo aconteça, fiquei temerosa com aquele fatídico momento que antecede o fechamento da urna. Pensei que, por saber de antemão da minha reação, poderia evitá-la ou ela simplesmente não aconteceria novamente. Mas fiquei com um pé-atrás de mim mesma. Quando o padre falou as últimas palavras, aproximei-me do meu avô. De um segundo para outro, tudo veio junto: lágrimas, falta de ar e um aperto no peito. Mais uma vez, aquela tia veio me amparar.

A morte é uma das poucas certezas que temos na vida. Vamos morrer. Mesmo assim, é difícil assimilar que a morte realmente existe e que saber lidar com ela melhora - e muito - o jeito com o qual encaramos a vida. É, porque a vida e a morte andam juntas. Inspirar é viver, expirar é morrer. Fazemos isso 24 horas por dia e não nos damos conta. E não precisa ser um fardo... Ao sair da igreja, após a missa, fui caminhando atrás do caixão, que era carregado. A cada passo que eu dava em direção à saída, vi que o sol daquela tarde de céu azul, um domingo de primavera, entrava pela grande porta. Os raios de sol invadiam o ambiente. Quase cegavam. E o meu avô ia embora. Imaginei que ele entrava em um lugar bonito. O céu, o sol, a luz recebia-o. Agora ele estava bem.

*Vida-morte-vida é uma expressão usada pela escritora Clarissa Pinkola Estés, no livro Mulheres que correm com os lobos. A autora explica-a longamente, mas vou simplificá-la como a energia cíclica das mulheres, que passam pelo ciclo menstrual todo mês. A ovulação é a chance de uma nova vida, seguida do sangramento e com ele a pequena morte, seguido novamente pela ovulação. Assim é a vida... Lembrei disso nesses últimos dias que vivi.

**Toda sexta-feira, às 10h, tem crônica nova aqui no blog. Gostou? Deixe seu comentário! E volte sempre!

Comentários

  1. A vida é um rito em rotação em com a morte rota de colisão.
    GK

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  2. Na adolescência, ou no fim dela, quando finalmente nos damos conta que a passagem do tempo existe, passei a lidar de forma muito difícil com a morte, com o tempo e com o fim das coisas. Um episódio que me marcou foi a morte do meu avó há uns anos. Aliás, não a morte em si. Dois dias antes do seu falecimento fui visitá-lo no hospital e vi um senhor antes alegre, cheio de vida e risadas sentado com os olhos perdidos, alheio a tudo e triste. Hoje vejo que ele sentia vergonha dos filhos e netos o verem naquela situação e sabia quer estava perto de partir.

    Nisso tudo penso no quanto somos esquecidos sabe? Olhei para aquele homem e pensei no pouco que conheci sobre a sua vida de dificuldades, sobre os anseios que ele tinha guardados só pra ele e nunca conhecidos pelos filhos (afinal, tendemos a ignorar que os mais velhos têm ou já tiveram os mesmos sonhos e tristezas que nós). Para os bisnetos, meu avô será alguém que não existe, como se nunca tivesse existido, assim como será com todos nós.

    Atualmente venho tentando aprender a lidar melhor com essas questões, mas é difícil.

    Desculpa o textão e não sei se saí do assunto, mas gostei bastante!

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    Respostas
    1. Oi, Jéssica! :)
      Entendo bem o que você fala. Eu também sinto que conheci pouco das minhas avós e dos meus avôs. Uma pena, porque agora o tempo passou e não há como voltar. De qualquer forma, pensar neles com carinho, pedir desculpas, perdoar e agradecer são sempre boas ideias. Pode nos livrar de qualquer culpa que podemos sentir (e sentimos). Percebi isso ano passado e me fez muito bem.
      Exato! Elas e eles são como nós... "Somos todos seres humanos na escola da vida." Gosto dessa frase.
      A morte é um negócio muito louco mesmo. Já nos é difícil lidar com a vida, imagina com a morte! Haha De qualquer forma, sempre estaremos vivos na memória e no coração daqueles que amamos.
      E vamos aproveitar muuuuuito enquanto estamos aqui!!! <3
      Um beijo, guria!
      Muito thanks pelo comentário! :)

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