Chove chuva, chove sem parar


Tem que chover também. Não tem como todos os dias serem de sol. Não há outro jeito. É assim e pronto. Tudo na natureza pode servir de metáfora para a vida. Já reparou? Sempre haverá trovões, relâmpagos e ventania. Durante uma noite que parecerá dias e semanas que parecerão meses e meses que parecerão anos. Como uma espera agoniante. Que por um lado sufoca, mas por outro liberta. Mas passa. Sempre passa. Mesmo que no clarear do dia as marcas estejam lá e assustem, elas diminuirão. Até que serão tão sutis que será quase possível esquecer que um dia tudo aquilo aconteceu. Não há dia de chuva que dure para sempre. 

Nem dor que não seja amenizada. Compreendida. Curada. Aliás, dói se curar. Dói me curar. Dói muito. Dói me olhar no espelho e perceber o quanto me fiz mal. Quanta raiva alimentei. Não pelo outros, mas por mim mesma. Porque é sempre sobre nós mesmos. Sempre. Mesmo que tudo tenha começado lá atrás, de forma inconsciente, um dia tornou-se consciente. E seguiu o masoquismo. Outro dia eu (me) olho de frente. Amanhã eu tenho coragem. Na próxima segunda... Até que ficou tão mas tão insuportavelmente consciente que não houve mais para onde fugir. A única alternativa era encarar a tempestade. E sem guarda-chuva.

Estou ensopada. Molhada da cabeça aos pés. Não há um centímetro do meu corpo que não esteja encharcado. Nem da minha alma. Eu sabia que a chuva viria violenta, devido ao longo tempo que as nuvens negras pairavam no meu céu. Ele estava carregado. De dar medo só de olhar e fazer um arrepio subir pela espinha. A chuva começou fraca, mas os pingos já eram grossos. Daqueles que marcam a calçada. Eu podia esperar "chumbo grosso". E lá veio ela. Assustadora. Continua vindo. Chove forte, mas tão forte que dá a impressão que nunca terá fim. Chove tanto que parece embaçar completamente a minha visão, como se eu não enxergasse saída.

Mas o sol há de brilhar novamente. Como nunca antes. Como a vida merece. Como eu mereço. Como uma recompensa por todo o frio que sinto enquanto fico debaixo da chuva. As lágrimas se confundem com os pingos, os pingos deslizam sobre a minha pele, minha pele se liberta da dor, a dor se liberta do meu ser e meu ser se liberta da dor. Uma catarse atrás da outra. De dentro pra fora, de fora pra dentro, um caos. O meu próprio caos. Mas todo caos tem sua beleza. Seu fim e sua cura. Afinal, tem que chover também. Mas não há dia de chuva que dure para sempre.

*Toda sexta-feira, às 10h, tem crônica nova aqui no blog. Gostou? Deixe seu comentário! E volte sempre!

Comentários

  1. Como canta Humberto Gessinger, "vai chover, vai secar, serão águas passadas..."
    GK

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