Espelho, espelho meu...


Nunca foi tão difícil me olhar no espelho. No banheiro, no quarto, no elevador. Pelo que vejo fora e pelo que vejo dentro. Pelas vezes e mais vezes que fiz dele meu pior inimigo e pela força descomunal que faço para transformá-lo em meu melhor amigo. Me joga na cara o passado e me anseia o futuro, enquanto me traz para o presente. Um dia de cada vez. Um novo bom dia, um novo boa noite. Vai passar. Vai passar. Vai passar, porque sempre passa. Enquanto isso, pergunto-lhe: existe alguém mais em dívida do que eu?

Vive-se a difícil arte de equilibrar o externo com o interno. Da comunicação de mão-dupla. De não deixar o físico reverberar o inconsciente doente, traduzindo apenas as dores do etéreo. Você pode até usar maquiagem, mas ela nunca vai esconder o supremo. O sentimento. Nem o rímel mais caro é capaz de fazer os olhos brilharem. Nem o batom mais glamouroso consegue colocar amor nas palavras de quem o usa. Nem o creme mais vendido tem o poder de arrepiar a pele. É preciso o toque de desejo, a fala que aquece e a vontade de enxergar a vida como dádiva que é.

O quanto o outro reflete aquilo que sou? O quanto o corpo do outro reflete como vejo o meu corpo? O quanto o julgamento da aparência do outro reflete o julgamento da minha própria aparência? Eu sei o que se passa naquela alma para julgar o que vejo naquele corpo? O quanto o meu valor como ser humano passa pela minha aparência? Porque penso tanto que o outro não irá ver meu valor se minha aparência não aparentar perfeição? A confiança de ser quem sou supera o valor que dou minha aparência? O que de fato me incomoda e o que em mim incomoda os outros que passa a me incomodar também?

Aguardo ansiosa pelo dia em que será fácil me olhar no espelho. De verdade, porque não lembro quando foi a última vez. Faço planos. Fecho os olhos e me imagino. Linda! Já sei que roupa vou usar, o que vou falar, qual brinco vou usar. Me espera... Eu volto. É tempo de fazer as pazes. Se não fosse agora, talvez depois fosse tarde demais. Quem sabe em quantos cacos ele (eu?) terminaria? Eu poderia me cortar feio. As cicatrizes seriam ainda mais fundas. Agi a tempo de um desastre ainda maior. No meu leito de recuperação, ainda levo algum tempo. Mas há de chegar o dia em que o espelho espelhará aquilo que vivo por dentro. A cura.

*Toda sexta-feira, às 10h, tem crônica nova aqui no blog. Gostou? Deixe seu comentário! E volte sempre!

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas